quinta-feira, 27 de março de 2025

O pingo e o oceano: Como pequenas fissuras revelam mares secretos

No princípio, era o silêncio. A torneira nova reluzia como uma promessa, sua boca de metal fechada em linha reta, obediente. Girávamos seu pescoço para a direita, e a água cessava imediatamente — como um segredo bem guardado, como um "eu te amo" dito na hora certa.

O primeiro plin chegou disfarçado de acidente. Um soluço noturno, um pequeno deslize daquele mecanismo perfeito. "Coisa de temperatura", justifiquei, como quem ignora o primeiro sintoma de uma gripe, o primeiro desvio no caminho de casa. Mas os plins foram se multiplicando, virando plons, até formarem um coral de mármore molhado. Coloquei uma tigela debaixo — um curativo improvisado, daqueles que usamos em feridas da alma, esperando que cicatrizem sozinhas.

A tigela enchia. Eu esvaziava. Era nosso ritual, uma dança de negligência e remorso. Às vezes, de madrugada, ouvia a água cair e pensava em outras goteiras invisíveis: o projeto abandonado na gaveta, o amigo que não ligava há meses, aquele exame médico marcado e remarcado. Todos ali, pingando no porão da mente, enchendo algum recipiente imaginário.

Quando o inverno chegou, a torneira desistiu de ser metáfora e virou inundação. A água escorria agora como lágrimas mal contidas, transbordando pela pia, invadindo armários, revelando o que eu tanto evitara: o mofo por trás do azulejo, as rachaduras na louça, a ferrugem que se espalhava como arrependimento tardio.

O encanador veio como um cirurgião de emergência. "Já estava assim há tempos", disse, arrancando o vedante podre com um movimento experiente. Suas mãos resolveram em minutos o que eu adiei por estações. Quando ele foi embora, deixou para trás uma torneira muda e uma conta salgada — o preço de se conviver com vazamentos, sejam eles de água ou de tempo.

Agora, quando giro a torneira até o fim, ouço apenas o silêncio. E me pergunto quantas outras coisas eu deixo pingar: os sonhos adiados (sempre "no próximo mês"), os perdões não dados ("ele sabe que sinto muito"), os amores que deixei secar ("um dia a gente se fala").

Torneiras, ao menos, nos dão um alerta sonoro. O coração, esse só avisa quando já estamos com os pés encharcados.

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